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COM A CAPTURA DE PEIXES, A EQUIPE DESCOBRE QUAIS ESPÉCIES AINDA SÃO ABUNDANTES, AS QUE ESTÃO FICANDO RARAS E AS QUE NEM PERTENCEM A ESTA REGIÃO, MAS FORAM TRAZIDAS PELO HOMEM.

 No lago que um dia foi floresta, os troncos secos perto da margem chamam a nossa atenção. Quase 30 anos se passaram desde que estas terras, na região de Foz do Iguaçu, oeste do Paraná, foram alagadas. E os troncos continuam de pé. “Algumas apodreceram nessa parte sobre a nadante que fica ali entre o ar e a água. Esse contato ar e água, ar e água, vai apodrecendo o tronco da madeira, mas algumas são puro cerne. Então, elas se conservam embaixo da água”, afirma o técnico em meio ambiente Sandro Alves. São como fantasmas. Esqueletos de uma floresta que teima em não ser esquecida. Seria o preço do progresso? Ao longo do seu curso, o Rio Paraná fornece água para a geração de energia em 57 usinas hidrelétricas. A maior delas é esta. E na fronteira do Brasil com o Paraguai o rio forma este imenso reservatório, o lago de Itaipu. Com capacidade para armazenar quatro mil litros de água por habitante do planeta. É o suficiente para que cada pessoa no mundo consuma em média dois litros de água por dia por mais de cinco anos. Saímos de Foz do Iguaçu para alcançar trechos do Rio Paraná ainda não modificado pelas barragens. São mais de 400 quilômetros de estrada. No caminho, praias artificiais e recantos de lazer criados para embelezar as margens e compensar o alagamento de quilômetros de terras férteis. Chegamos a Porto Rico, uma pequena cidade onde pastagens e as águas do Paraná dominam o cenário. É aonde funciona o Nupélia, Núcleo de Pesquisas da Universidade Estadual de Maringá. “É uma área de desova, um berçário natural e uma região de criadouro de peixes e de outros organismos aquáticos, não é?”, questiona o biólogo coordenador da Nupélia Samuel Veríssimo. Seguimos com os pesquisadores deslizando pelas águas. Estamos no último pedaço do Rio Paraná livre de represas. Neste trecho mais natural, o rio Paraná tem água limpa, águas cristalinas em vários pontos. Dá pra enxergar até o fundo de areias muito claras. É mais uma consequencia das várias represas construídas ao longo do rio. Para nós pode parecer um paraíso, mas para os pesquisadores é um mau sinal. “A água muito clara ela altera o que a gente chama de produtividade porque ela tem menos nutrientes. E também altera o que a gente chama de relações interespecíficas, que, no caso, é predação. É muito mais fácil de um predador visual capturar a presa dele”, afirma Luiz Carlos Gomes. Aguá assim tão clara só é boa mesmo para os banhistas. Mas estes bancos de areia mudam de lugar constantemente. Hoje, estamos a 200, 300 metros da margem, com água pela cintura. Mas amanhã ou depois, este mesmo local pode ter vários metros de profundidade. “A água fica limpa, ela tem um poder erosivo muito grande e vai removendo o fundo de uma forma mais efetiva, mais rápida”, diz o biólogo Luiz Carlos Gomes. Nesta região de planície, o Rio Paraná forma um enorme arquipélago, com imensos jardins de água-pés. Estas ilhas ficam completamente encobertas na época das cheias. Mas com o volume das águas controlado pelas barragens, elas já não são mais tão duradouras como no passado. “Durante este evento, os peixes encontram abrigo durante as fases mais jovens e acaba quando a água retorna para a calha do rio, os peixes já estão num tamanho maior, são menos predados e consequentemente toda a pesca vai ser beneficiada com isso”, ressalta o biólogo Ângelo Agostinho. Há 26 anos, a equipe do professor Ângelo Agostinho estuda os impactos provocados pelas usinas. Com a captura de peixes, descobre quais espécies ainda são abundantes, as que estão ficando raras e as que nem pertencem a esta região, mas foram trazidas pelo homem. “Aliadas a essas espécies que vieram de outras bacias, temos mais de 30 espécies que subiram de Itaipu, subiram sete quedas depois da construção de Itaipu. Algumas delas substituindo espécies nativas como o caso que aconteceu com a piranha e possivelmente com a piapara”, explica Ângelo. João Carlos da Silva estuda as aves que dependem deste ambiente aquático pra sobreviver. Como as garças, os biguás, e os paturis. Estes patinhos aproveitam as moitas de capim para buscar alimento e se reproduzir. Vamos para um dos muitos canais que dividem as ilhas. Nas margens a vegetação é mais densa. De repente, uma movimentação na água chama a atenção do pesquisador. Seria uma cobra? É um filhote de jaú, o gigante do Paraná. O peixe está todo machucado. Provavelmente, foi atacado por piranhas. João Carlos da Silva – biólogo: É muito difícil de se encontrar esse espécime de peixe aqui, desse tamanho, jovem. Uma pena que esteja nesse estado. Comido. Repórter: se ele ficasse na água ele sobreviveria? João Carlos da Silva: Não ele não sobreviveria porque ele não conseguiria nadar. As nadadeiras dele estão todas comidas. Provavelmente as piranhas iriam acabar com ele. Repórter: nossa que peso. Você acha que pesa o que, uns oito quilos? João Carlos da Silva: pesa uns oito quilos Quando adulto, o jaú pode chegar a 150 quilos. Mas, com a formação dos reservatórios e a pesca predatória, tem se tornado raro. Na colônia de pescadores, a espécie é coisa do passado. “Já peguei jaú com 56 quilos, já. Isso já faz uns 15 anos atrás, já”, conta Luiz Viana. “Faz bastante ano, uns 12 anos que peguei um jaú. Agora não pega mais”, lembra Aderaldo da Silva. Estamos em Guairá, no finalzinho do lago de Itaipu. Nesta época do ano, o céu da cidade ganha milhares de visitantes. São andorinhas, numa vertiginosa revoada. Logo, seguirão para regiões mais quentes e só vão voltar no ano que vem. É hora de descansar. Porque amanhã cedinho tem pescaria. Quando o dia amanhece, já tem pescador na água. Vamos com eles em busca dos chamados peixes nobres: pacus, pintados, dourados, jaús. Mas o tempo não está nada bom. Para quem depende da pesca não tem tempo ruim, choveu a noite toda, continua chovendo. Mesmo assim os pescadores vem pra água. Eles tem que garantir o sustento da família. No meio do rio, a correnteza é muito forte. E com a chuva, decidimos retornar para a margem. Quem vive da pesca já sabe: hoje, o dia vai ser fraco. De volta à cidade e com o tempo melhorando, encontramos o biólogo Edson Okada. Há 25 anos, o pesquisador acompanha a rotina das colônias de pesca do rio Paraná. Todos os meses, recolhe centenas de formulários iguais a este. Neles, os pescadores anotam tudo o que conseguiram tirar do rio. A queda na oferta de peixes é preocupante. E o caso do jaú, o mais grave. “Em 1987, quando começamos o trabalho nós tínhamos uma captura anual de cerca de 59 mil quilos dessa espécie. Em 2011 no último levantamento que fizemos essa captura caiu para 1,5 mil quilos. Se nós colocarmos que a média de quilos pagos para o jaú são de R$10, são R$ 570 mil que não estão mais disponíveis para os pescadores somente para essa espécie”, destaca o biólogo Edson Okada. Ponto por ponto, Iria Eberhard e Rudi teceram uma vida, na delicada trama das redes de pesca. Nas lidas com o rio, os dois se conheceram, se apaixonaram, casaram e criaram os filhos. Mas hoje a vida anda difícil. “Antigamente, dava. Hoje. Não tira nem pra comer”, conta Iria Eberhard. José Cirineu, também é pescador. Aprendeu o ofício com o pai, ainda criança. Hoje, é presidente da colônia de pescadores e acredita que a profissão está com os dias contados. “Entram alguns jovens, mas eles entram, pescam pouco tempo e já sai. Eles vêem o sofrimento dos pais fala: ‘o pai sofre demais, a mãe sofre demais, então, a gente tem que sair para outro caminho’ e isso deixa a gente triste porque a gente gostaria que eles seguissem o caminho”, fala o pescador José Cirineu. Apesar da pesca ruim, seu Zé tem esperança de que o Paraná ainda vai voltar a ser o rio generoso do passado. “A expectativa da gente é contando com o dia de amanhã. Porque o de hoje já tá passando”, completa José Cirineu.  

Créditos : HTTP://G1.GLOBO.COM/GLOBO-REPORTER/NOTICIA/2012/05/EQUIPE-ESTUDA-IMPACTO-AMBIENTAL-CAUSADO-PELAS-USINAS.HTML


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