NO ANO PASSADO, PARANÁ TEVE 867 MORTES DE PESSOAS ENTRE 20 E 29 ANOS EM ACIDENTES DE TRÂNSITO, PROPORÇÃO VERIFICADA EM TODO O PAÍS
Um em cada quatro brasileiros mortos em acidentes de trânsito em 2010 tinha entre 20 e 29 anos de idade. No ano passado, foram quase 11 mil óbitos nessa faixa etária, o que corresponde a 26,3% dos 41,7 mil casos registrados no país. O Paraná segue a mesma proporção, com 867 mortes de pessoas entre 20 e 29 anos para um total de 3,4 mil vítimas do trânsito.
O panorama observado nas estatísticas de mortalidade do Sistema Único de Saúde (SUS) mostra a consolidação de um grupo de risco ao volante. Quanto mais jovem o motorista, maior a possibilidade de se tornar uma vítima fatal do trânsito.
As causas desse fenômeno são, sobretudo, comportamentais. Analistas dos setores de trânsito e de saúde relacionam a impetuosidade da juventude ao simbolismo do automóvel como demonstração de poder, o que estimula atitudes potencialmente perigosas. A imprudência à sinalização e aos limites de velocidade se tornam qualidades e elementos de distinção entre os grupos motorizados.
Sessenta anos depois, o efeito James Dean – ator símbolo da “Juventude Transviada” – ainda se faz presente no tráfego urbano. “O jovem é mais atirado nas coisas, e acha que nada vai acontecer com ele. E a nossa cultura faz apologia da velocidade, relacionando o dirigir rápido à noção de superioridade”, compara o especialista em trânsito José Mario de Andrade, diretor de uma empresa de tecnologia de segurança e gestão do tráfego.
Motos
No caso específico do Brasil, o aumento da frota de motocicletas também contribui para agravar o problema. Ao todo, as motos estiveram envolvidas em 25% dos acidentes registrados em 2010. Isso ocorre não apenas porque o veículo é comprovadamente menos seguro que o automóvel, mas também pela expansão do serviço de motoboys, grande recrutador de jovens. “No interior, percebemos casos ainda mais graves de desrespeito à legislação, como a falta de capacete. A moto se tornou, inclusive, uma opção mais barata que o transporte público”, comenta Marta Silva, coordenadora de vigilância e prevenção de violências e acidentes do Ministério da Saúde.
Bebida
O risco é agravado pela somatória de outros comportamentos, notoriamente o consumo de álcool. “Nos fins de semana, percebemos que a maioria dos acidentados que dão entrada na emergência ingeriu bebidas alcoólicas”, destaca Luiz Felipe Mendes, diretor técnico do Hospital Evangélico de Curitiba.
O peso da bebida na contagem de mortes no trânsito é perceptível na comparação de morte em anos recentes. Em 2009, o Brasil teve redução no número de vítimas fatais pela primeira vez na década. Naquele ano, o país registrou 37,6 mil óbitos, somando todas as idades, ante 38,3 mil no ano anterior. O Ministério da Saúde relaciona essa queda aos primeiros meses de implantação da Lei Seca, quando a fiscalização foi mais apertada.
Em 2010, porém, a contagem voltou a subir, e o ano passado fechou com 41,7 mil mortes em acidentes. “Logo que saiu a Lei Seca, ocorreram mais blitze educativas e repressivas, então a população mudou o comportamento durante aquele período”, relaciona Marta. “Infelizmente, precisamos de ações contínuas para mudar esse quadro. Quando não há controle, as pessoas param de ser cuidadosas”, lamenta.
Prudência nas ruas não garante segurança
O risco de se envolver em um acidente de trânsito também atinge quem dirige com cautela. Dois anos após o acidente de trânsito que tirou a vida de seu filho, a dona de casa Donzília Machado Espíndola ainda não conseguiu se recuperar da perda. No dia 9 de novembro de 2009, Alexandro, técnico em informática de 31 anos, morreu após uma peça de um guincho se soltar e atingir a sua moto. O acidente ocorreu na BR-116, o caminho percorrido diariamente por Alexandro para chegar ao trabalho. “Ele tinha pouco tempo de carteira, mas era prudente ao guiar nas ruas”, lembra a mãe.
Desde a tragédia, Donzília passou a fazer terapia e frequentar grupos de ajuda para tentar minimizar a falta. Ela acredita que a Justiça não foi aplicada no caso. “As pessoas que fazem coisas erradas precisam pagar de algum jeito para que os acidentes deixem de existir”, desabafa.
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