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SE VOCÊ ACHA QUE O AUMENTO DA TEMPERATURA PLANETÁRIA É A ÚNICA AMEAÇA À BIODIVERSIDADE, PODE TIRAR SEU CAVALINHO DA CHUVA. CONFORME O PROFESSOR DE ZOOLOGIA THOMAS LEWINSOHN, DA UNIVERSIDADE DE CAMPINAS, OUTROS FATORES DEVEM SER INCLUÍDOS NESSA CONTA,

Se você acha que o aumento da temperatura planetária é a única ameaça à biodiversidade, pode tirar seu cavalinho da chuva. Conforme o professor de zoologia Thomas Lewinsohn, da Universidade de Campinas, outros fatores devem ser incluídos nessa conta, como o próprio aumento na quantidade de gás carbônico na atmosfera, elevação dos níveis de hidrogênio, recrudescimento de problemas com espécies invasoras e mudanças no uso do solo por desmatamento e queimadas. “Os efeitos desses processos não são independentes e podem ter efeitos surpreendentes sobre as espécies", disse.

Planta encontrada no Cerrado, a arnica-do-mato (Chromolaena odorata) é uma grande invasora de regiões na América do Sul. Com base nas características climáticas dos locais onde sobrevive, um time de pesquisadores encabeçado por Lewinsohn projetou onde ela poderia ganhar ainda mais espaço em porções da Ásia, Oceania e África.

“Descobrimos áreas de grande risco para sua instalação, onde ela pode se tornar uma praga importante com o aumento da temperatura”, comentou. Mas a descoberta mais interessante do grupo foi observar que abelhas e outros polinizadores deixavam de lado florestas nativas atraídos pelas intensas floradas da plantinha brasileira. "Esse fenômeno mostra uma invasão biológica que pode ganhar força com o aumento da temperatura e ameaçar florestas”, ressaltou.

Biólogo e presidente da Abeco (Associação Brasileira de Ciência Ecológica e Conservação), Lewihson usa outro exemplo de impactos sobre a savana para mostrar que o destempero do clima promete bagunçar com o coreto da conservação. Modelagem de Marinez Ferreira de Siqueira, do Centro de Referência em Informação Ambiental de Campinas, e de Andrew Townsend Peterson, do Natural History Museum and Biodiversity Research Center da Universidade do Kansas (Estados Unidos), mostrou que a área de Cerrado apta para a sobrevivência de 162 plantas poderá encolher entre 25% e 90% se a temperatura média subir apenas um grau centígrado.

"As espécies não se dispersam nem se adaptam com a velocidade necessária para compensar o problema climático. Além disso, cada uma responde de forma diferente às mudanças de temperatura", explicou.

Ficaram de fora das estimativas espécies mais raras do bioma, que tem cerca de 12 mil tipos diferentes de vegetais, incluindo plantas que aprenderam a enfrentar longos períodos de secas e chuvas e poderão ser muito importantes em um mundo ameaçado pelas alterações do clima.

Outra investigação, conduzida em áreas degradadas de Cerrado em São Paulo, mostrou que “perturbações moderadas” na vegetação podem levar até a um aumento de certas espécies e nas interações entre elas. Mas tudo depende do nível de impacto sofrido pelo ecossistema. “Alterações mais severas podem estar associadas a coextinções, extinções de espécies em cadeia. Isso é preocupante, porque todos ecossistemas precisam de uma quantidade mínima de espécies para se manter", ressaltou. “Espécies não são bolinhas de gude, elas são acervos vivos sobre as relações entre o ambiente e outras espécies”, disse.

Por isso o professor da Unicamp avalia que boas estratégias de conservação precisam reconhecer que os ecossistemas naturais dependem do que ele chama de “interações entre organismos”, ou seja, das relações entre animais, plantas, insetos, microorganismos e outros ilustres integrantes da diversidade biológica. “Sem reconhecer essas interações, não se pode elucidar o funcionamento dos ecossistemas", disse. Mas essa intrincada engrenagem biológica pode ser desajustada ou até rompida pelo calorão prometido para o futuro.

Conforme Lewinshon, que se autodenomina um “coletor de interações”, um apanhado de quase 700 estudos publicados tratando desse tema mostrou que as variações nos níveis de gases na atmosfera, desmatamento e espécies invasoras provocam efeitos como aumento de competição entre espécies, prejudicam a alimentação de animais que preferem plantas no almoço ou jantar, aumentam a incidência de doenças sobre a flora e trazem problemas à polinização e dispersão de sementes. Uma quebra profunda nos mecanismos de conservação. "Os sistemas ecológicos são complexos. Nossas tarefas (pesquisas) estão mais complicadas, precisamos bons indicadores sobre o funcionamento dos ecossistemas. É um desafio imenso e necessário", afirmou.

Momento de ação
Mas se as pesquisas sobre interações se tornaram mais complexas e ainda são incipientes no Brasil, especialmente sobre organismos no solo, tal fato não justifica falta de ação conservacionista, inclusive para permitir que espécies ameaçadas pelo aquecimento do globo encontrem os caminhos da sobrevivência. “É impossível mapear todas as interações entre todos os organismos. Logo, uma política possível e necessária é aumentar o número de áreas protegidas”, pede Lewinsohn.

Debruçado há anos sobre as riquezas cada vez mais ameaçadas da floresta tropical, Philip Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, também avalia que o futuro pode ser tarde para ações contra perdas de biodiversidade e mudanças do clima.

“É preciso tomar decisões hoje com base nas melhores informações disponíveis. Mas a falta de estudos conclusivos sobre este ou aquele assunto é sempre usada como desculpa para não se fazer nada. O primeiro passo para se resolver um problema é reconhecê-lo, depois agir”, reforçou.

Créditos : HTTP://WWW.ITARGET.COM.BR/NEWCLIENTS/FUNDACAOBOTICARIO.ORG.BR/CBUC2009/?OP=ITNOTICIAS&ID_SRV=2&ID_TPC=2&NID_TPC=&ID_GRP=1&ADD=&LK=1&NTI=58&L_NTI=S&ITG=S&ST=&DST=3


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