NA OPINIÃO DE COORDENADOR DO INSTITUTO EMATER, A MAIOR PARTE DOS PECUARISTAS PARANAENSES PRECISA REVER A MANEIRA DE CONDUZIR SEU NEGÓCIO: EM VEZ DE APENAS CRIAR BOIS, FOCAR EM SISTEMAS MAIS MODERNOS E PRODUTIVOS
A pecuária de corte paranaense convive, atualmente, com duas realidades. De um lado, a tradicional, baseada em uma atividade extrativista e pouco produtiva. De outro, a profissional, com gestão moderna, alto grau de tecnologia incorporada e potencial para crescer. “No Estado, de 60% a 70% das propriedades dedicadas à pecuária de corte ainda mantêm sistemas de cria, recria e engorda pouco avançados”, avalia Luiz Fernando Brondani, coordenador estadual de pecuária de corte do Instituto Emater. Mas, segundo ele, quem possui uma fazenda assim, apenas como “reserva de valor”, não vai aguentar por muito tempo. Além da baixa produtividade - fatal para qualquer negócio -, o mercado, explica, está se redirecionando rapidamente para carnes de melhor qualidade, que demandam modelos mais modernos de produção. “Quem vai ficar é só o investidor bem preparado”. Com um rebanho estimado em 6,120 milhões de cabeças, o Paraná é o sexto produtor nacional de carne bovina, de acordo com o Departamento de Economia Rural (Deral) da Secretaria da Agricultura e do Abastecimento (Seab). Desse total, 70% são animais anelorados e os restantes de origem europeia e cruzados. Considerada a prima pobre do agronegócio, a pecuária de corte passa por um visível declínio no Estado. “O número de animais vem diminuindo”, observa Brondani, atribuindo a isso o fato de que a maior parte das pastagens da região Noroeste, por exemplo, encontra-se degradada e sem perspectivas. Umuarama e Paranavaí, municípios situados na zona do arenito caiuá, estão entre os principais polos pecuários do Estado, mas por causa do esgotamento dos pastos, o retorno econômico vem caindo. “O pecuarista em geral não é dado a fazer investimentos pois reluta em aceitar inovações”, pontua João Batista Barbi, zootecnista do Instituto Emater em Tapejara, cidade próxima a Umuarama. Conforme Barbi, forma-se um círculo vicioso: os pastos, exauridos em nutrientes, ficam na dependência do clima entre outubro e maio para produzir toda a forragem que vai alimentar o gado. Porém, se faltar chuva e, principalmente, se gear forte no inverno, como se viu em 2013, faltará comida e os animais que ganharam peso no verão vão perder tudo novamente no inverno. É o “efeito sanfona”, um dos sinais que denunciam o anacronismo da pecuária mantida com métodos ultrapassados. Barbi garante: não é preciso andar muito, nas épocas frias, para encontrar animais morrendo de fome. A faixa do arenito caiuá compreende 3,2 milhões de hectares da região Noroeste, onde há 107 municípios e uma população de 1,4 milhão de habitantes. De acordo com o zootecnista, são quase 2 milhões de hectares de pastos, 70% dos quais encontram-se exauridos, porque a forma de pecuária ali mantida é a extrativista, que não repõe nutrientes, uma vez que devido ao baixo rendimento desse modelo antigo, o investimento acaba não compensando. Em um pasto nessas condições, a média de unidades animais por hectare (10 mil metros quadrados) durante um ano inteiro chega a ser irrisória: apenas 1,4, informa Luiz Fernando Brondani. Sem esquecer que, por causa das dificuldades que enfrenta, o gado pode demorar até mais de 36 meses para ficar pronto. “Na média paranaense, a produção tem ficado ao redor de 132 quilos de carne por hectare ao ano, o que é muito pouco”, completa. Tal realidade explica porque o Paraná é, hoje, um mercado importador de carne bovina. Conforme números do Deral/Seab, o Estado precisa trazer de fora ao menos 40 mil toneladas/ano para suprir o seu consumo. Produzir mais sem ampliar a área Luiz Fernando Brondani, do Instituto Emater, garante: com um choque de gestão, sem necessidade de expandir a área de pastos, o Paraná tem condições de aumentar em 100 mil toneladas a produção anual de carne bovina, suprindo seu déficit atual de 40 mil toneladas e passando a ter excedente para exportar. Ele se baseia em dados colhidos junto a fazendas localizadas em diversas regiões do Estado, as quais adotam sistemas com foco em alta produtividade. Segundo Brondani, são propriedades que conseguem média de 630 quilos de carcaça por hectare/ano, “o que torna a atividade bastante remuneradora”. A cotação atual da arroba (15 quilos) está na faixa de R$ 107,00, conforme a BM&F/Bovespa. A mentalidade empresarial empregada exige também que os animais fiquem prontos bem mais cedo. Em vez de três ou até quatro anos, conforme se vê no arcaico modelo tradicional, um bovino pode atingir o peso ideal para ser abatido bem mais jovem. Há, para isso, sistemas hiperprecoces, superprecoces e precoces, ilustra o coordenador. O primeiro, para se ter ideia, possibilita a terminação de animais com idade entre 9 e 12 meses e 12 a 13 arrobas de peso. Quando um animal é abatido jovem, lembra, sua carne é mais macia e saudável. O choque de gestão a que Brondani se refere está em incorporar à produção de carne a agricultura de pasto, conforme se vê hoje nos sistemas de integração lavoura, pecuária e floresta. O cultivo de capim braquiária no outono, por exemplo, vai possibilitar massa alimentar em quantidade no inverno. Ao mesmo tempo, a espessa camada de palha dela resultante, que fica sobre o solo, viabiliza o plantio direto de soja na primavera, trazendo uma nova fonte de renda. Ou seja, com o melhor aproveitamento dos pastos, vai sobrar espaço para outros negócios, incluindo o cultivo de eucaliptos. “Em vez de apenas 1,4 unidade animal por hectare, podemos chegar rapidamente ao ideal de 4”, ressalta o coordenador, que acrescenta: “o pecuarista não pode mais pensar apenas em produzir boi, mas carne de qualidade para um mercado cada vez mais exigente e seletivo”. Outra dica de Brondani para quem produz carne de qualidade é organizar-se, contratar o frigorífico apenas como um prestador de serviço e efetuar a comercialização diretamente aos pontos de venda. Segundo ele, a vantagem para quem consegue fazer isto é um ganho adicional de até 13% no preço do produto, além de desenvolver uma marca própria. “Já temos muitos exemplos de pecuaristas que se uniram em pequenas cooperativas especializadas e estão vendendo diretamente sua carne aos supermercados”, afirma Brondani, lembrando que os casos de maior sucesso estão localizados em Umuarama, Toledo, Cascavel, Pato Branco, Guarapuava, Campo Mourão e Londrina. São, no total, 430 empresários-pecuaristas que já produzem cerca de 90 mil toneladas de carne diferenciada e com maior valor agregado. NÚMEROS ***A pecuária tradicional incorpora apenas 30% da tecnologia disponível, enquanto o setor da avicultura de corte emprega 100% e a suinocultura, 98%, conforme dados do Instituto Emater ***70% dos pastos da região noroeste do Paraná encontram-se degradados, com baixo retorno econômico. É muita terra para pouco boi. ***40 mil toneladas é quanto o Paraná precisa importar de carne bovina, de outros Estados, todos os anos
Créditos : HTTP://WWW.DIARIODONOROESTE.COM.BR/NOTICIA/ECONOMIA/AGRONEGOCIOS/53134-PARANA-TEM-MUITO-PASTO-PARA-POUCO-BOI
PÁG. ANTERIOR